4º Encontro Brasileiro de Silvicultura reuniu profissionais altamente especializados para discutir temas como a utilização de geotecnologias para o planejamento e controle da silvicultura e manejo de resíduos visando ganhos nas operações silviculturais.

 

Concebido para complementar a programação da Semana Florestal Brasileira, o Encontro Brasileiro de Silvicultura, organizado pela Malinovski e Embrapa Florestas, é o principal palco de discussões sobre silvicultura do Brasil. Em sua quarta edição, realizada paralelamente ao Seminário de Colheita e Transporte de Madeira nos dias 09 e 10 de abril, tendências e soluções para o segmento foram apresentadas e discutidas por palestrantes altamente especializados, promovendo o intercâmbio técnico-científico entre profissionais e instituições que atuam na área florestal.

De forma geral, durante o evento, os palestrantes concluíram que discutir o estado da arte na silvicultura é essencial para que o setor brasileiro de florestas plantadas possa desenvolver suas atividades silviculturais e manter-se como um importante player no cenário mundial.

Os 400 profissionais presentes no evento, representantes das principais empresas de base florestal e instituições de pesquisa florestal do país, puderam acompanhar palestras divididas em quatro blocos temáticos principais: Mecanização e Automação na Silvicultura; Riscos e Produtividade Florestal; Novas Oportunidades e Mercados; e Cadeia Produtiva da Madeira.

 

Mecanização e automação na silvicultura

A palestra de abertura do evento, realizada por Ricardo Malinovski, diretor da Malinovski, trouxe uma análise das tendências para a mecanização da silvicultura no país. Apresentando um estudo realizado com as grandes empresas florestais e fabricantes de máquinas e equipamentos para a silvicultura, Ricardo apontou as principais tecnologias utilizadas na silvicultura mecanizada no Brasil atualmente, e ponderou sobre o futuro do setor, apresentando questionamentos para o desenvolvimento do mercado. “O propósito para alcançar mudanças significativas na silvicultura deve ser do setor, somente desta forma poderemos evoluir. Precisamos encontrar formas para reduzir o número de operações de silvicultura, nos profissionalizar, respeitar as patentes e aumentar a área plantada” concluiu.

Em seguida, Rogério Salamuni, gerente de projetos da Klabin, falou sobre “Tecnologias para Mecanização em Áreas Acidentadas”. Na palestra, Salamuni descreveu as tecnologias atuais e resultados obtidos pela Klabin, como a plantadeira Bracke P12 para preparo de solo e plantio mecanizado e aplicação de herbicidas com drones, uma tendência global no segmento, ou mesmo com helicópteros.

“Durante muito tempo os ganhos em produtividade florestal tiveram o melhoramento genético como carro-chefe. O desenvolvimento tecnológico, manejo de solo e projetos de fertilizações potencializaram o aumento da produtividade. Hoje, o Brasil é reconhecido mundialmente por pela excelência florestal”, apontou o palestrante.

“Utilização de Geotecnologias para o Planejamento e Controle da Silvicultura” foi o tema analisado por Ariel Smoliar, co-fundador e CEO da PlanetWatchers, e John Yanez, consultor florestal da PlanetWatchers no Brasil. Os palestrantes explicaram que, através do uso de imagens, já é feito o monitoramento patrimonial em larga escala. Mesmo assim, Yanez lembra que de nada adiantam as imagens e as informações sem uma criteriosa avaliação dos dados. “É preciso tecnologia para avaliar tudo isso. Só assim temos uma rápida tomada de decisões”, resumiu Yanez.

Lúcio de Castro Jorge, pesquisador da Embrapa Instrumentação, debateu a “Utilização de VANTs na Empresa Florestal”. “A área de cartografia, que estava quase estagnada, deu um salto significativo, graças ao uso da tecnologia dos drones. Essa tecnologia vem se mostrando em uma ferramenta importante e fundamental em diversas áreas, inclusive na silvicultura”, relatou.
Em sua palestra, intitulada “Tecnologias Florestais de Precisão e Mercados”, o gerente de geoinformações e proteção florestal da Fibria, Luis Sabbado, dividiu os critérios de desenvolvimento da empresa em três pilares principais: gestão de ativos, gestão de insumos e gestão comportamental. “Temos uma experiência grande de gestão de terra, por isso estamos mais avançados nessa área.” Segundo Sabbado, a Fibria está trabalhando para avançar na gestão de máquinas, veículos, mão de obra, insumos e outros. “Para isso precisamos buscar novas tecnologias. Temos que aumentar produtividade e a velocidade para apurar as informações”, afirmou.

 

Riscos e produtividade florestal

O segundo ciclo de palestras do Encontro lidou com tópicos ligados aos riscos e produtividade florestal, temas relevantes na tomada de decisões do setor. O primeiro palestrante, Helton M. Lourenço (especialista em solos, manejo e ecofisiologia na Veracel), delineou o case da empresa em relação a “Avanços Tecnológicos na Formulação de Adubação para Florestas” e apresentou os resultados concretos obtidos na Veracel.

“Macro e Microplanejamento Silvicultural e Ecossistêmico na Bacia Hidrográfica” foi o tema conferenciado por José Leonardo Gonçalves, professor titular da ESALQ/USP. Desafios antecedentes apontados pelo pesquisador incluem a conjuntura econômica desfavorável, o aumento de custos de serviços e insumo, a diminuição da disponibilidade e qualidade da mão de obra, e maior insegurança climática e fitossanitária.

Hugo Mastropierro, sub-gerente de silvicultura na Montes del Plata, trouxe considerações sobre o “Manejo de Resíduos Visando Ganhos nas Operações Silviculturais”, destacando a importância da mecanização da silvicultura no processo, otimizando ganhos e reduzindo impactos ambientais.

Leonardo R. Barbosa, pesquisador da Embrapa Florestas, discutiu o futuro dos plantios florestais em relação às principais pragas exóticas de eucalipto e novas ameaças no Brasil. “O estabelecimento e manutenção da sanidade de plantios de eucalipto requer: programas de melhoramento com foco na seleção de genótipos resistentes/tolerantes a pragas; medidas reforçadas de quarentena e biossegurança; estratégias de vigilância específicas para pragas de eucalipto; melhor percepção pública sobre pragas; e estruturas políticas apropriadas”, determinou.

Finalizando o primeiro dia de palestras, Caio Antonio Carbonari, professor adjunto FCA/UNES e diretor presidente da FEPAF (Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais), dissertou sobre “Resistência das plantas daninhas: panorama e desafios do setor florestal”.

“Observamos os primeiros impactos da resistência de plantas daninhas na área florestal. Há necessidade de ações preventivas, diversificação dos métodos de controle e dos herbicidas. Devemos explorar mais todas as ferramentas disponíveis”, alertou.

 

Novas oportunidades e mercados

O terceiro bloco visou lançar um olhar para o futuro do mercado florestal mundial. “Silvicultura, Produtividade e ILPF” foi o tema das três primeiras palestras do segundo dia, fornecendo um panorama concreto dos mercados emergentes.

Neste contexto, Fausto Takizawa, secretário-geral da Arefloresta (Associação de Reflorestadores de Mato Grosso), abordou os mercados da teca. “A Ásia é o maior produtor e maior consumidor mundial de teca de plantações, mas é um ciclo de 60 anos. O Brasil vem se tornando um destaque pois tem muita área disponível e muitos fundos de investimentos. Todo o know how de tecnologia para a produção de eucalipto está sendo adaptado e aplicado para a teca. Desafios para o crescimento incluem o alto custo de implementação/manutenção; ciclo de produção longo (20 a 25 anos); ineficiência logística e burocrática no escoamento da produção; e a necessidade de disseminação de inovação e tecnologia para produção de madeira de teca”, salientou.

Quem tratou dos mercados do cedro australiano foi Ricardo Vilela, presidente da ProCedro (Associação Brasileira de Produtores de Cedro Australiano). “Na década passada muitos investimentos se perderam e muita gente se frustrou com o cedro. Colocamos 90% do nosso esforço, intelectual e financeiro, em pesquisas. Investimos em manejo e melhoramento genético. De 2014 para cá, começamos a plantar em escalas maiores, em uma nova realidade. A produção de madeira serrada de nativas vem reduzindo em 12% ao ano; móveis de alto valor, esquadrias e pisos de melhor qualidade, materiais estruturais de madeira, como vigas coladas, e indústrias melhor estruturadas procuram oferta de madeira com qualidade e padronização para a produção mais econômica e eficiente – há grande oportunidade se houver estruturação da cadeia”, ponderou.

Já Patrícia Fonseca, diretora executiva da ABPMA (Associação Brasileira dos Produtores de Mogno Africano), disse que: “Dificuldades e incertezas no mercado de mogno africano incluem questões de espaçamento, material genético, irrigação, qualidade da madeira, variações de solo e clima, financiamento e processamento. Mas recentemente tivemos a melhor notícia dos últimos tempos. A Tramontina, presente em mais de 50 países com cerca de 18 mil itens, sinalizou que irá utilizar madeira de mogno africano na produção de produtos.”

A palestrante apontou a integração lavoura-pecuária-floresta como uma alternativa viável para o uso da terra nesse mercado.

Finalizando o bloco, Maria José Zakia, membro da equipe técnica do IPEF (Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais) e professora convidada da UNESP, falou aos congressistas sobre as oportunidades para a silvicultura na legislação ambiental.

“Há uma oportunidade imensa pela frente, mas que exigirá mudanças conceituais e na forma de atuar. Estamos ‘condenados’ a mudar (reinventar) ou perderemos a maior oportunidade de conciliação entre produção e conservação. A lei pode ser vista só como limitadora, mas pode (e deve) ser vista como qualificadora. Creio que temos capacidade para praticar uma nova silvicultura”, concluiu.

Escrito por Luciano Simão